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segunda-feira

#BlogNemComento - Palocci hoje. E amanhã?

Por Edinho Silva* (01/06/11)

O ministro Palocci sofre as consequências de um modelo de Estado arcaico, que não mais responde às demandas do Brasil para o século 21

Não quero com esse texto fazer nenhuma defesa cega do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Ele tem esclarecimentos a dar para a nação brasileira e para os organismos do governo, e os dará.

Longe de ter a intenção de minimizar o seu livre-arbítrio, Palocci sofre as consequências de um modelo de Estado arcaico, que não responde às demandas do Brasil do século 21 e às exigências da sociedade civil existente.

O fato de Palocci ter uma empresa de assessoria e estabelecer contratos com a iniciativa privada não caracteriza nenhuma ilegalidade.

Portanto, da perspectiva legal, o então deputado federal não cometeu nenhum erro.
Mas quando a notícia da existência de sua empresa e do que ela faturou veio a público, presenciamos a reação da sociedade, por sinal, legítima; como presenciamos a tentativa de setores da oposição, de forma oportunista, de se utilizar do fato para investir em uma crise no governo Dilma Rousseff.

A i negável reação de setores da sociedade civil demonstra, em última análise, uma vontade de mudança; de haver reforma de regras, de normas, em que fique muito claro o que se pode e o que não se pode na atividade pública, que supere o antagonismo entre a flexibilidade normativa do Estado e o rigor interpretativo da sociedade civil.

Palocci é sujeito de seus atos, mas também objeto de relações entre o público e o privado, em que a complacência legal do Estado torna os indivíduos mais vítimas que vilões. Vítimas de aparato estatal envelhecido e débil, alimentado pelas conveniências do privado, inclusive por setores da mídia que temem, conservadoramente, reformas, e legitimado pela inércia e pela perplexidade casual da sociedade.

Mais uma vez, presenciamos em abundância a energia destinada à interpretação que falta na mobilização pelas reformas do Estado brasileiro. De forma hipócrita, dá-se preferência para o debate das consequências, e n ão das causas.

A inexistência de unidade social e política, muitas vezes incentivada pelos interesses imediatistas do privado, para implementar as reformas já gerou muitas baixas na vida política brasileira. Agora, estamos vendo sofrer um considerável desgaste um dos melhores quadros políticos de sua geração.

Tive a oportunidade de conhecer o militante Palocci, fundador de muitos diretórios do PT na região de Ribeirão Preto. Vi o dirigente do Sindicato dos Médicos organizar a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e lutar pelos direitos dos trabalhadores.

Presenciei um vereador e deputado dedicado e visionário, um prefeito que entendeu a necessidade de inovar nas políticas públicas, referência para o Brasil.O país deve a Palocci e a Guido Mantega o êxito da política econômica do governo Lula, que criou as condições para que o Brasil crescesse com justiça social. Uma bela biografia neste momento atingida.

E pior, por atos amparados pelo Estado. O episódio vivenciado por Palocci tem que deixar lições.

Penso, e tenho defendido, que o PT utilize o seu acúmulo político tirando as reformas do Estado brasileiro da carta de intenções, criando as condições para que sejam efetivadas, trazendo para as regras e normas aquilo que a sociedade civil já projetou, decidiu e incorporou à sua cultura política.

A armadilha continua ativada.

Qual liderança e qual partido político será o próximo?

*Edinho Silva é presidente do PT no Estado de São Paulo e deputado estadual (PT-SP).

domingo

#BlogNemComento - O caso Palocci e o aburguesamento da cúpula petista


Por Anderson Rodrigo

As denúncias de enriquecimento ilícito contra Antonio Palocci são esclarecedoras de um fenômeno que há muito tempo vem ocorrendo entre os dirigentes petistas. Não quero tratar aqui se o enriquecimento de Palocci é devido à corrupção ou não, mas de analisar o caso sob o prisma da política, particularmente da luta de classes.

Independente de serem ou não legais os meios pelos quais Palocci enriqueceu 20 vezes seu patrimônio nos últimos anos, é necessário analisar o fenômeno que ocorre há pelo menos duas décadas, do enriquecimento dos dirigentes e lideranças do PT. Palocci, neste caso, é apenas mais um exemplo, juntando-se a José Dirceu, que segundo ele mesmo tem uma remuneração mensal de 300 mil reais, ou o ex-presidente Lula que atualmente recebe 200 mil reais por cada palestra proferida para empresas privadas, além de inúmeras outras lideranças do PT que direta ou indiretamente enriqueceram através da política.

A bancada do PT no Congresso Nacional conta hoje com mais de 10 milionários, além de vários outros parlamentares que não chegam a ter seis zeros em suas contas bancárias, mas que estão muito longe de serem trabalhadores.

Temos hoje um distanciamento econômico gigantesco entre a direção petista e sua base, o que resulta num partido supostamente de trabalhadores mas com uma direção burguesa.

Este processo de enriquecimento das lideranças petistas está espalhado em todas as esferas. Há uma multidão de prefeitos, governadores, vereadores, deputados petistas entre outros que descobriram uma outra motivação para fazer política, qual seja: ganhar dinheiro, aliás muito dinheiro.

O fenômeno da mudança de classe destas pessoas possui uma relação direta com o processo de degeneração do Partido dos Trabalhadores. Parafraseando Marx: “ as condições materiais de existência determinam a consciência”.

O que acontece com toda essa camada “emergente” petista é que já não se identificam mais com a classe trabalhadora, para muitos deles a defesa dos interesses dos trabalhadores transformou-se em apenas retórica para ganhar votos.

A mudança de classe tem um preço, vem acompanhada de uma nova consciência, uma nova forma de enxergar o mundo, a partir da ótica da classe dominante da qual agora fazem parte. Obviamente este processo não é automático e provavelmente uma parte destes novos burgueses devem ter “crises de consciência” e são movidos por um voluntarismo sincero que os faz se iludir que mesmo tornando-se burgueses ainda podem continuar ao lado dos trabalhadores. Não se trata de enxergar a “maldade no coração dos novos burgueses petistas”, mas de compreender que ao mudarem de classe, estas pessoas conscientemente ou não, vão gradativamente assumindo os interesses de sua nova classe.

Junto com esta nova consciência, fez-se necessário o surgimento de um novo partido, no qual nossos companheiros burgueses não se sentissem tão deslocados. As “atualizações programáticas” feitos pelo PT nos últimos anos vem dando conta disso. O socialismo vem se tornando cada vez mais uma referência vaga, um sonho utópico , que no final das contas quer dizer apenas um capitalismo com um pouco de distribuição de renda.

Como já dito acima, à medida que seus dirigentes se incorporam à burguesia, o PT adapta-se cada vez mais ao capitalismo. E os trabalhadores que ainda compõem a base desse partido detêm hoje poucos meios para reverter tal situação, uma vez que os organismos de democracia interna do PT atualmente quase inexistem.

Como se vê, o “caso Palocci” é apenas uma pequena parte do problema vivido hoje pelo PT e conseqüentemente pela esquerda brasileira.

quinta-feira

#BlogNemComento - A inocência deslumbrada de Palocci


As “denúncias” contra o ministro-chefe da Casa Civil do governo da presidenta Dilma Rousseff suscitam uma avalanche de reflexões, as quais, na opinião deste blog, para quem não está fazendo jogo político são as mais importantes, apesar de que não estão sendo discutidas.

Em primeiro lugar, a artilharia contra Palocci integra o que poucos destacaram apesar de estar ficando cada vez mais claro: acabou-se a “lua-de-mel” entre este governo e a imprensa golpista. Foi bom (?) enquanto durou, mas já era.

Dilma bem que tentou. Foi simpática, não fez provocações, chegando ao nível de ter ido prestigiar o jornal que já põe as garras de fora e se mostra disposto a infernizar o novo governo, ainda que, por enquanto, poupando a sua titular diretamente, o que pode significar uma mudança sutil de estratégia, de atacar o governo sem agredir pessoalmente o titular como ocorria na época de Lula.

Mas por que, isso? Será que Dilma está contrariando tanto a mídia conservadora e aqueles que ela representa? Está nada. Apenas não está cortejando essas forças, como queriam.

Após o episódio da festa de 90 Anos da Folha, tudo voltou ao normal. Dilma apenas tentou ser gentil e desarmar espíritos, agora se vê.

Todavia, a direita entendeu como rendição. É sério: entendeu que os vencedores se renderam só para não terem o desgaste de lutar. Aqui já se dizia, porém, que, se Dilma os contrariasse – ou quando os contrariasse –, qualquer esforço de distensão iria por água abaixo. E foi.

Vamos entender por que a onda com inflação, Copa do Mundo, livros didáticos e, sobretudo, contra o “homem do mercado”, Antonio Palocci.

Este, também não entendeu o jogo. Acha que basta não contrariar interesses ou contrariá-los o mínimo possível. Não basta. Tem que favorecer a esses interesses e fazer oferendas no altar midiático.

É claro que há interesses que a direita midiática não quer ver contrariados. Essa história de acabar com a miséria no Brasil, por exemplo, vai custar mui caro. Mas se pagar bem, que mal que tem?

Ou seja: a mídia quer contratos, quer demonstrações de respeito, quer poder. Se o governo não oferece, danou-se.

Vejam o caso de Palocci. É claro que ele enriqueceu após deixar o Ministério da Fazenda na esteira da grande farsa que foi o caso do caseiro Francenildo, subornado pela direita midiática para acusar e derrubar um dos principais ministros do governo Lula.

Querem me informar, então, qual foi o membro de equipe econômica que não ganhou rios de dinheiro após a passagem pela área econômica de um governo?

Por que a imprensa nunca se interessou pela evolução patrimonial de um professor universitário como Persio Arida, que, depois da passagem pela vida pública, tornou-se banqueiro? Porque todos sabem que passagem pela área econômica do governo, ainda mais como ministro da Fazenda, dá muito dinheiro.

Ao sair do governo, o então ministro da economia Antonio Palocci levou consigo informações privilegiadas assim como levam todos os que atuam na área econômica governamental. Mas a mídia só quer saber o que Palocci fez com tais informações. Os outros “não interessam”.

Há um período de “quarentena” que membros da área econômica do governo têm que cumprir após deixarem o cargo, mas é ridiculamente baixo. Seis meses. Seis míseros meses e o sujeito que dirige a economia do país, e que carrega todas as informações que carrega, pode cair nos braços do “mercado”.

É óbvio que todos lucram com isso e, se isso é imoral, é para todos e não só para Palocci. Fica óbvio, então, que a questão em relação a ele é política e não de interesse público.

Agora, não vamos deixar passar batida a conduta, não de Palocci, mas da classe política. Por que alguém que deve primar pela conduta sóbria como um ex-ministro da economia e que, agora, ocupa o cargo de ministro dos ministérios compra um apartamento de seis milhões de reais?

A resposta é deslumbramento. Esse é um mal que aflige de tucanos a petistas. Atinge a toda classe política. O poder deslumbra. A autoridade deslumbra. Tudo isso afasta o político da sociedade, estigmatiza-o e causa danos irreparáveis à confiança na democracia.

Sou muito inocente por querer que todos os membros de equipe econômica que enriqueceram no cargo prestem contas? Não, eu sou honesto. Quem só quer informações de um lado e finge que não leu a questão sobre Persio Arida, não é.

Estamos muito mal é quando aqueles que se calaram quanto a Arida e companhia agora decidem abrir a boca contra Palocci, mostrando que não defendem a ética, mas a politicagem.